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A partir dos 35
A partir dos 35 - SAPO Blogs

  • É o bicho, é o bicho...

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    Parecendo que não, este blogue até que tinha um objectivo. Está certo que, pelo caminho, enviesou-se por caminhos e becos algo confusos e foi perdendo a autoestrada que dava sentido à coisa. Relembremos, então: serviria para relatar o suficiente que garantisse uma ideia da infância, para que, quando as minhas filhas forem grandes, não tenham a necessidade de me perguntar histórias de quando eram pequeninas. Assim, precavendo desde já a hipótese das maleitas dos velhos me limparem a memória, ficam aqui as coisas, preto no branco, em eternos bytes gravados.

     

    E há coisas que devem mesmo permanecer, pedaços importantes do tapete de memórias que se quer tecer, por mais improváveis que pareçam. É aqui que aparece o bicho, ou melhor, o bichinho: animal sem espécie, tem um diminutivo como nome, que nasceu há tantos anos quantos os anos em que as crianças aportaram na nossa vida e não cresceu. Nem nunca crescerá. O bichinho é a minha mão e a alegria das meninas. Talvez seja uma recriação do Coisa da Família Adams, o que desde logo prova que não há personagem de terror, que não possa ser bem aproveitada, para uma brincadeira infantil. Estou até muito esperançado que apareça alguém que infantilize o Freddy Krueger, que me muito indicado para alegrar qualquer festa de aniversário infantil. Estou certo que concordarão comigo.

     

    O bichinho gosta de crianças, brinca com elas, mas rouba-lhes bolachas e puxa-lhes os cabelos. E elas zangam-se com ele e ralham-lhe, bichinho!!. E ele fica envergonhado, roça os dedos, uns contra os outros, cabisbaixo, ele não faz nada por mal, ele é assim, é pequenino. Claro que ele não fala, estes dedos não têm boca, mas nem precisa: não há movimento que elas não entendam, vontades que elas não percebam, dores que elas não acudam. Tantos anos de convívio, transformaram duas crianças e uma mão, na pandilha mais perfeita e improvável.

     

    Eu sei que o bichinho não cresce e só morrerá comigo. Mas sei também que a sua vida não vai estar activa muito mais tempo... Daqui a pouco vou ouvir, contrariado talvez, que está na hora do bichinho ceder o seu lugar, na vida das meninas. Que está na hora de entregar o bichinho à sua história passada, à infância que para trás vai ficando. E ele, coitado, hibernará. No meu bolso será guardado, assim como guardadas ficarão as memórias de tantas horas de diversão, que cinco dedos e duas crianças podem ter, todos juntos.

     

    Mas, quem sabe, um dia não ouvirei, talvez mesmo daqui a umas tantas décadas, papá, onde está o bichinho? E, nesse dia, uma encarquilhada mão se libertará do peso dos anos, abandonará a manta das memórias e ganhará de novo a sua vida. À procura de bolachas para roubar, cabelos para puxar ou mesmo de corrimões onde escorregar.



  • 4 dias em terras de má fama

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    Como garantido tínhamos 4 dias de tédio e aborrecimento. Pelo menos era o que se podia concluir depois dumas breves pesquisas. É que bastou ler umas duas ou três opiniões sobre o nosso destino, para vermos que os adjectivos mais utilizados andavam na onda do sonolento, chato, desinteressante e mais uns sinónimos, igualmente simpáticos. A coisa prometia. Pelo sim pelo não, meteram-se uns livros no saco, para acelerar as horas que teimassem em passar.

     

    Não li nem uma linha. Não tive tempo: ocupei-me a observar a beleza, a divertir-me, a ver, a provar. Não me aborreci. Que miséria, não consegui chegar às mesmas sensações de quem esteve lá antes... Onde terei errado?

     

    Claro que quem chega a Bruxelas com a ideia de ver uma horda de cinzentões engravatados a medir maças com régua e esquadro, a garantir que todas as bananas curvam para o mesmo lado ou a normalizar qualquer outra coisa, são capazes de ficar um pouco desiludidos. Esses eurocratas-maníacos-dos-standards devem andar acantonados nos seus gabinetes, porque nas ruas encontramos um povo simpático e folgazão, a aproveitar os raios de sol ou os pingos de chuva, nas esplanadas; fanfarras coloridas e gigantones a dançar. Mais ou menos o que seria de esperar duma festa minhota, mas num formato um pouco mais nórdico e friorento.

     

    Claro que há os clichés. E há que experimentá-los a todos, não é esta a altura para ficarmos nas margens, de sermos alternativos. Até porque estamos a falar de cerveja, aliás cervejas, centenas de tipos diferentes, cada uma com o seu sabor e o seu copo, nada de misturadas, nem pensar. Estamos também a falar de chocolates, cada um com melhor aspecto que o anterior, a gritarem por nós nas montras das chocolatarias, montras de babar e de pasmar e há, ainda, as batatas fritas, com molho disto ou daquilo. Ah, e as waffles ou gaufres ou lá como se chamam, quase que me esquecia delas, com aquele cheiro a entranhar-se nas ruas. Terra de colesterol elevado, fosse eu belga e explodia antes dos 40 anos, era certinho.

     

    Quatro dias não dão para muito, por isso a ideia era apenas aborrecermo-nos em Bruxelas e chatearmo-nos em Bruges. E assim foi, menos os verbos. Tanto uma cidade como a outra, na sua enorme diferença, são para visitar de olhos abertos, mente desperta e pés no empedrado das ruas. E estejam à vontade, podem sorrir e espantar-se, não é vergonha gostar da Bélgica. Eu gostei. Gostei da dimensão humana das cidades, atravessadas por parques e canais, por espectaculares montras e por história. E por corvos, bandos deles, emprestando à cidade um colorido negrume.

     

    Está bom de concluir, sempre que ler um texto a maldizer um destino, apanharei um avião para lá. A terra pode ter má fama, pode ser que eu tenha bom proveito.

     

     



  • Isto não me está a cheirar nada bem

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    É sempre de louvar quando vemos uma empresa portuguesa a inovar, a rasgar horizontes e a arriscar a introdução de novos produtos no mercado global, inovações fresquinhas que farão espumar de raiva os seus concorrentes. Esse sim é o caminho, muito bem, venha daí um salva de palmas bem forte. Eu fico sempre contente quando isto acontece, agora não posso é garantir que goste sempre das inovações introduzidas...

     

    Vem a coisa a propósito da mais recente aquisição para as casas de banho da empresa onde passo os dias e que tem a gentileza de me pagar o ordenado, mês após mês. Pois dá-se o caso que há mais de um semana que temos uma empresa portuguesa a fornecer um novo papel de secar as mãos, mas peço agora a vossa especial atenção para o pormenor, papel perfumado! Ah, estão vocês a pensar, grande coisa, isso já existe há para aí uns 20 anos. Está bem, contem-me coisas novas, eu também sei disso, mas aqui a especialidade é o aroma. É que estamos na presença dum papel com aroma a esgoto! E não se trata aqui dum engano, vê-se que a empresa está orgulhosa do seu produto, porque o cheiro não é forte, é muito forte! Que bonito é ver alguém inovar com esta violência olfactiva, os meus mais sinceros parabéns.

     

    Claro que agora uma ida à casa de banho é tão agradável como um mergulho numa conduta de saneamento e apresenta ainda um problema olfactivo-ambiental: lava-se muito bem as mãos, com um cheiroso sabão líquido e seca-se com um desses inovadores papeis. Resultado: as mãos ficam a cheirar a fossa séptica. Voltamos a lavar e a ensaboar, seca-se e o resultado é o mesmo... Estão a ver o problema ambiental? Está bem que o papel é reciclado, mas obriga a tamanho gasto de água e sabão, que temo que a empresa esteja a dar uma no cravo e outra na ferradura, ambientalmente falando. Em conclusão, só conseguimos sair da casa de banho depois de lavar, ensaboar e secar as mãos à roupa. Parece-me que os gastos neste tipo de papel, vão rapidamente descer em flecha.

     

    Engenhosa forma de reduzir custos. Quase que aposto que a próxima medida será adoptar um sabonete líquido com cheiro a enxofre, haja empresa que o forneça.

     



  • Celebrar a decadência

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    Adversário de respeito, este. E luta inglória, é que não se vê maneira de o derrotar: contorná-lo, pará-lo ou derrubá-lo, não são opções. Atrasá-lo parece que também é complicado. Que nos resta, então? Há sempre a táctica cínico-derrotista do, se não posso vencê-lo mais vale juntar-me a ele, que neste caso da passagem do tempo, que é disso que se trata, tem expressão na celebração. Já que não o derrotamos, podemos sempre fingir que ficamos todos contentes, ai que alegria tão grande, com a sua vitória. Celebremos.

     

    Dá-se o caso, na verdade deu-se há uns dias (que atento que eu ando), dá-se o caso, dizia eu, que este blogue fez 2 anos. Não que o facto em si mereça grande celebração, basta ver a regularidade dos últimos textos para termos uma imagem dum infinito deserto branco, pintalgado aqui e ali por uns oásis em forma de posts. Celebramos, pois, um quase-cadáver, a quem ainda não houve tempo, oportunidade, coragem, sei lá, de dar o golpe misericordioso e o enviar para o céu dos blogues. Ou para o inferno deles. Para o purgatório não, porque tal coisa foi extinta por decreto papal e, por mim, muito bem, até porque era zona bem duvidosa e, certamente, muito mal frequentada.

     

    Curiosamente, dei por mim a pensar: o curioso não é eu ter estado a pensar, até o faço com uma frequência relativa, às vezes mais do que uma vez ao dia, o curioso foi o pensamento em si. Avancemos. Pensei eu que, provavelmente, se o blogue já estivesse morto e acabado, esta celebração seria muito mais vantajosa, porque não faltariam grandes discursos elogiosos, coisa boa para o ego de qualquer mortal. É que não há morto mais formoso que o morto português. Toda a gente sabe que em Portugal qualquer escroque morto, ainda com o corpo a arrefecer, tem sempre um fundo de bondade, que foram as situações e tal que o levaram a ser um bocado mau, mas que no fundo no fundo, bem lá mesmo no fundo, era muito bonzinho e ajudava a mãe e até mesmo os pobrezinhos, coitado. Entre nós, ninguém é melhor em vida do que vai ser na morte, nem por sombras.

     

    Tudo isto me leva a antever que a próxima celebração sobre este blogue que vou promover, quem sabe o seu terceiro aniversário, será já depois de ele morrer. Aí sim, aparecerão hordas de amigos, conhecidos e afins, todos de lágrima no canto do olho, expressão pesada pela perda e com elogios a granel pelas teclas fora. Momentos muito bonitos, antevejo e eu vou ficar muito tocado e praticamente sem palavras. Vai ser a glória.

     

    Só não estou certo se, depois de morto, possam ser celebrados aniversários... Depois vemos isso.

     

     



  • De volta aos sapatos

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    De modo que acabaram. Está bem que aqui ninguém se apercebeu, tal o marasmo blogueiro, mas as férias acabaram. Não as férias de escrita no blogue, que isso é coisa para assim permanecer; se quiserem vão queixar-se ao meu chefe. E, daí, não vão coisa nenhuma, que o resultado pode ser desinteressante para estes lados... Vá, estejam quietinhos.

     

    Pois este ano foi seguir o ir para fora cá dentro, que, se é para apanhar gripe, ao menos que sejam uns vírus que falem em bom português. Mas não é por andar cá dentro, que não se anda muito. Fomos dum extremo ao outro, regressamos e partimos para outro extremo, que o país é pequeno, mas tem extremos que se farta. Fartamo-nos, portanto, de extremar, como que a mostrar que não é no centro que está a vritude, mais uma frase feita que cai assim por terra, coitada.

     

    Tracemos o mapa, que é sempre bom perceber-se do que se fala: de Braga a Milfontes, de Milfontes a Braga, de Braga a Miranda do Douro e de Miranda do Douro a Braga, mais as necessárias incursões pelas respectivas regiões. E, já agora, também uma ligeira incursão por regiões não nossas, um saltito a terras vizinhas, que acabou num caminho para cabras espanholas. Calma, não são as espanholas que são cabras, a estrada é que era para cabras, não vá já começar aqui e agora mais uma desavença diplomática. Muitas horas, muitos quilómetros, está feita a confirmação da publicidade que garante que o nosso país cresceu. Se não cresceu, parece.

     

    Coisas várias se podem fazer em tão poucos dias. No extremo do litoral podemos sempre aspirar o cloro das piscina, esmagar as plantas dos pés nas pedrinhas à beira-mar plantadas, aterrar numa espreguiçadeira a ver as nuvens passar no azul do céu, pelo menos até aparecer uma face infantil a perguntar se já está na hora de cair na água, pela trigésima vez nos últimos 10 minutos. Ou então, numa impressionante recriação dum qualquer livro dos "Cinco", avançar sem medo por grutas escorregadias em busca dum monte de ferrugem, com forma de barco, encalhado para sempre num mar de areia.

     

    Já no extremo das terras de Miranda a música é outra e parece-me evidente que seja feita em mirandês: parte-se nun barco bilingue para besitar cuorbos i demales passarada, mui sperançados que l barco nun se smague contra las arribas, l que ne ls tornarie ne l'almuorço de l duonhos de la casa... por falar an almuorço, hai que passar fame antes de partir para estas paraiges, adonde las tostas mistas son jantares para 4 pessonas i la la famosa posta ten tanto de bun cumo de trabalhoso. Mas nun ne ls quedamos, fomo-mos a eilha cumo manda la tradiçon. I eilha fui-se. Tradiçon ye tamien ber ls pauliteiros, tamien era solo l que faltaba alhá ir i nun ls ber, que serie bien pior que de l que nun ber l papa an Roma, yá qu'esse nun ten ritmo i dá un cacho de sono. Ls pauliteiros ye al cuntrário, haba ritmo i gaita de foles i ye bé-los a rodopiar i a paulitar, de roupas garridas, antre boltas i rebiraboltas, traçan caminos de coraige i beleza, tanto pa l mirar cumo pa ls oubidos. Quien bai la Miranda i nun ls bai ye ber, nun merece l'aire que respira.

     

    E assim foi. E assim acabaram. E agora, que os sapatos finalmente tomaram o lugar das sandálias, já as saudades surgem. Não destas férias que passaram, mas sim saudades das próximas. Que para trás mija a burra; olhemos para a frente, então.

     

     



  • Investigação (na) Primária

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    Das duas, uma: ou as minhas filhas são muito intergeracionais ou as conversas sobre doenças, maleitas e achaques, não são propriedade privada dos velhinhos das salas de espera dos centros de saúde. Isto porque, à saída da aula de karaté, a conversa no carro aterrou na saúde ou na falta dela. Batemo-las todas: da constipação passamos à gripe (das aves, dos porcos e demais bicharada), da gripe fomos à pneumonia, a coisa ia-se agravando, o quadro clínico debatido era já bastante reservado, até que desaguamos no cancro. Ora foi aqui a Sara não pareceu estar ao nível da conversa, tendo necessidade duns esclarecimentos adicionais:

     

    - Cancro? E em que parte do corpo é isso?

     

    Não há nada mais bonito do que uma irmã mais velha a partilhar a sua sabedoria. E assim foi, a Beatriz esclareceu:

     

    - O cancro pode ser em qualquer parte. Por exemplo, nos meninos, se lhes baterem na pila, podem ficar com cancro.

     

    Palavra de professora, garantiu-me. Quem sou eu para discordar da sacrossanta palavra de tal sumidade? Naturalmente remeti-me ao mais respeitoso silêncio e dei graças a que não é por estarmos a falar duma pequena escola pública, que investigação científica da mais elevada categoria não seja feita por lá. Confesso que nunca encontrei o laboratório avançadíssimo que certamente existirá e até já andei a espreitar... Só se for na cantina, nas horas mortas. É, deve ser.

     

    Ainda bem que o processo de avaliação dos professores está em marcha. Há que distinguir e premiar estes casos de excelência. É que não acredito que haja muitos locais no mundo onde uma professora primária, no intervalo da tabuada do três e dos substantivos colectivos, se dedica ao estudo do efeito duns bons pontapés no meio dumas pernas masculinas. Brilhante.

     

    Sindicatos, baixem as armas! Deixem a avaliação avançar. A bem da Nação.



  • Quando o telefone toca

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    Quando o telemóvel anuncia que o meu próximo interlocutor dá pelo nome de "EB1 de ...", imagino imediatamente que a Beatriz está agarrada, com um esgar de dor, a qualquer parte do corpo, se espetou furiosamente contra uma parede na aula de educação física, partiu os óculos em trinta pedaços ou qualquer outra desgraça dentro do género. Foi esse o caso desta vez.

     

    Que eram os ouvidos. Que estava a queixar-se de dores lancinantes desde manhã, que parece que a coisa era tão grave que ela não aguentaria a brutal espera de mais duas horas até nós lá chegarmos. A menina confirmou, respondendo com hum hum a tudo que perguntei. Naturalmente hesitei entre chamar os meus pais para a irem buscar, ou partir logo para a opção INEM, que a coisa afigurava-se gravíssima. Optei pela primeira, mas com um grande aperto no coração e mesmo com um sentimento de culpa já bastante acentuado, como podem imaginar.

     

    A entrada no carro dos avós, mais uma vez travestido de ambulância, parece ter feito bem à maleita da menina: à pergunta da avó de como se sentia, bastou um abanar de mãos, como quem diz mais ou menos, para ficarmos logo todos mais aliviados. Sim, porque como é sabido, mais ou menos é muito melhor que mal. Que alívio, até já se respira melhor.

     

    Para conseguir uma cura há quem faça de tudo um pouco: quem vá ao médico, ao hospital, ao curandeiro, ao endireita, à bruxa, faça promessas, consulte o Professor Bambo, poderoso mágico perito em magia branca e negra, maus-olhados, amarrações e arranjinhos em geral, quem se encha de medicamentos e outras opções mais. A Beatriz não. Ao que parece, basta-lhe umas horas na casa dos avós para logo melhorar. É que são várias as valências lá existentes, tudo em prol da saúde das crianças. Senão, vejamos: podem passar-se horas sem fim em frente ao computador, em diversas actividades, qual delas a mais divertida. Também temos a opção de nos estendermos num sofá a olhar para a televisão ou a ler qualquer coisa. Como é evidente, tudo isso acompanhado pela possibilidade de se lanchar umas cinco vezes por tarde, o que não faz senão bem. E depois há as actividades ao ar livre, que vai desde passear e apanhar flores, até uma paragem para comprar um brinquedo qualquer, culminando quase sempre num gelado puramente medicinal, evidentemente. Em conclusão, ir para a casa dos avós é como ir para as termas, sem a chatice da parte das termas.

     

    Serviu este episódio para confirmar, como se tal fosse necessário, a  potência curadora dos ares da casa dos avós. Sim, porque era doença de monta, pobrezinha.

     

     



  • Solidariedade digital

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    Há que começar com uma palavra de apreço para todos vocês aqui chegados, bem enganados pelo título do post. Bem sei que a palavra digital, com qualquer coisa atrás, atrai sempre uma boa quantidade de ávidos seguidores das parafernálias digitais, maluquinhos das novas tecnologias e demais fauna desse género. Eu sei que assim é, porque é o que me costuma acontecer. Estou, portanto, com vocês: solidário no vosso engano e triste com o tempo que agora perderam. É que aqui, neste post, digital vem de dedo, aqueles apêndices das mãos que, ao que parece, têm outras utilidades além de carregar em teclas e botões. Pronto, desfeito o engano, vão em paz e espero que aceitem as minhas sentidas desculpas.

     

    Se no post anterior lamentei uma consequência da falta de tempo, agora devo acrescentar outra: a falta de tempo magoa, uma dor física, bem forte por sinal. Sim, porque foi só por manifesta falta de tempo, por mais nenhuma outra razão, ora essa que ideia, que o meu polegar esquerdo se viu na triste situação de aguentar, simultaneamente, a pressão duma porta e a dureza duma parede. É que a pressa é muita e não há tempo para abrir convenientemente as portas, quem me dera... Pois foi assim que o negrume atingiu o dedo e o bater do coração abandonou o peito e instalou-se na unha. Pelo menos foi o que pareceu. Literalmente, foi ter o coração nas mãos.

     

    Mas há beleza escondida em todas as situações. Já o sabia, agora vi-o. E sentio-o. O momento solidário e fraterno estava ali mesmo à espreita e não se fez esperar: o polegar direito, ao ver o seu semelhante assim mutilado e entristecido, muniu-se dum profundo sentimento de partilha e empatia e arremessou-se, com uma interessante violência, contra um móvel. Foi lindo. Claro que o resultado foi de louvar, pelo menos em termos estéticos: dum lado o negro e, no outro, o vermelho sangue. Francamente belo e muito interessante também, porque o latejar do coração agora acontecia nas duas mãos. É tão bom ter dois corações, pode dar muito jeito em caso de transplantes e tal.
     

    Fica assim provado, como se ainda tal fosse preciso, que o povo é sábio quando diz que a pressa á má conselheira. Aliás, se quiserem uma prova ainda mais forte, basta lerem este texto novamente...

     

     



  • Decidir, não decidindo

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    Não deve haver quem não saiba o que é a tirania do tempo, esse brutal exemplo da maldição dos recursos escassos. Bem queremos que ele estique, mas a sua elasticidade tem limites incompatíveis com os nossos desejos.

     

    Como sempre acontece nestes momentos de escassez, o primeiro passo para a sobrevivência é a escolha, o estabelecimento de prioridades, tu primeiro, tu a seguir, tu para o fim da fila, tu desapareces. Há que ter critérios e, neste caso, entre gastar o tempo no trabalho ou no blogue, pesou mais aquele que ajuda a colocar comida na mesa. Critério bem estúpido, dirão alguns. Sim, até pode ser, mas é que eu gosto bastante de comer. E o resto das pessoas que vivem lá em casa, também. Manias.

     

    Já sabemos a causa, passemos à consequência: o blogue está à deriva, quase abandonado; arrasta-se penosamente pela blogosfera, numa orfandade de meter dó. E eu, seu pai desnaturado, encontro-me dividido entre a sádica manutenção desta agonia e declínio, ou, em alternativa, a utilização do meu cutelo virtual para aplicar-lhe uma piedosa eutanásia.

     

    Não encontro forma de me decidir. Mas, pensando bem, a não tomada de uma decisão é uma decisão em si mesma. Só falta saber a duração da não decisão. É para sempre? Quem sabe. Eu sei que não sei.

     

    Mas uma coisa sei: por estes dias, este blogue é zombie.

     

     



  • Um estranho azedume

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    É ir em expedição a qualquer hipermercado e deambular pela secção dos cereais para pequeno-almoço: que infinito universo abre-se para nós! Há de tudo para todos, do intragável ao maravilhoso, de todas as formas, feitios e sabores. A escolha apresenta-se, praticamente, como uma impossibilidade. O melhor é pegar no mesmo de sempre ou no primeiro que aparecer.

     

    Estando eu e a Sara em plena odisseia, por essa densa selva de sabores matinais, quando deparo com o meu pequeno-almoço preferido, em criança: O Nestum com Mel (Cara Nestlé, a factura por este momento publicitário segue pelo correio hoje mesmo). E passei a elogiar o produto à menina, que era uma delícia, que sabia assim e assado, que ia comprar para ela provar. Mas a Sara teve opinião diferente:

     

    - Com mel? Sabes papá, uma vez experimentei mel e não gostei.

     

    A frase veio devidamente acompanhada por uma careta, que deu logo outra força à coisa. E continuou:

     

    - É que eu achei o mel, assim,... azedo.

     

    A Sara considera, portanto, que o mel é azedo. Algumas conclusões interessantes podem ser extraídas deste facto, como, por exemplo, estarmos na presença dum radical caso de inversão das papilas gustativas. É uma possibilidade, não o nego. Mas, sinceramente, não me parece ser esse o caso. Digo isto, porque vejo a alegria contagiante com que despacha tudo o que for doce e tenha o azar de se lhe atravessar no caminho: bolachas, chocolates, bolos e todos os seus sucedâneos, são universalmente considerados doces. E são considerados doces, porque são, fundamentalmente, doces. Ora se a Sara considera o mel azedo, estas guloseimas seriam descritas como? Penso que nem haverá palavra que descreva semelhante sabor...

     

    Em resumo, a Sara considera o mel azedo e devora todas as outras guloseimas com alegria e rapidez. A meu ver, tudo isto revela um aspecto da personalidade da menina: estamos na presença duma empedernida masoquista. Só pode ser isso, está bom de ver.

     

     




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