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Esta noite, na Grande Entrevista da RTP, Judite de Sousa vai entrevistar Carlos Cruz. Nos próximos seis ou sete programas, Judite de Sousa deverá entrevistar os restantes arguidos condenados em 1.ª instância. Como se espera de um serviço público que pagamos a preço de amigos.
A passadeira hoje devia ser azul, já que ele é do Belenenses. Mas o Rodrigo Saraiva - do Albergue Espanhol e do PiaR - certamente não levará a mal a cor. É ele o nosso convidado de hoje.
Fidel Castro, surpreendendo muito boa gente, acaba de reconhecer que o "modelo cubano" não é exportável, pois nem em Cuba funciona. "El modelo cubano ya no funciona ni siquiera para nosotros", declarou o histórico dirigente comunista, ainda hoje idolatrado por uma certa esquerda, ao jornalista Jeffrey Goldberg, já aqui citado pela Ana Margarida.
Apetece perguntar: será que o Avante!, sempre tão atento a todas as declarações de Castro, também transcreverá estas nas próximas edições? Por mim, não tenho ilusões: certamente o director do jornal, José Casanova, dará ordens para omitir por completo o assunto no jornal oficial dos comunistas portugueses, incapazes de lidar com tanta heterodoxia. Vai uma aposta?
Se me pedissem para identificar o autor da frase acima, eu nunca teria acertado. Jeffrey Goldberg, da The Atlantic, foi convidado para ir a Cuba conversar com Fidel Castro (sim, o verdadeiro) sobre um artigo que escreveu na revista sobre o Irão e Israel. A frase que cito é de Fidel, e o objectivo é pedagógico: explicar a Ahmadinejad a difícil história do anti-semitismo, o seu carácter excepcional face a todos os outros povos, e de como é preciso compreender os judeus para obter a paz. A entrevista é mesmo surpreendente, e acreditem que este é só um dos aspectos mais fascinantes. Castro está preocupado com o rumo dos acontecimentos no Médio Oriente, particularmente com a escalada para um eventual conflito aberto. O mais interessante é que, pesem embora as culpas do grande Satã americano e do seu aliado regional, Israel, Castro aponta baterias ao Irão, denunciando a ignorância destes em relação ao problema judaico de insegurança. E claro, reconhece o direito inequívoco de existência de Israel. É a reinvenção do mito, aos 84 anos.
A cena que mais recordo é aquela que o mostra, já no final, sentado na cadeira de praia, com um fio de tinta preta a escorrer-lhe do cabelo, ao som da 5ª Sinfonia de Mahler. Obra-prima, colheita de 1971.
Alertado por um artigo já antigo do TLS (Clive Sinclair, ?Total Eclipse?, aka o artigo-descaradamente-roubado-por-este-post), resolvi fazer um exercício: comparar um clássico com o seu remake. Ou seja, resolvi comparar, vá, a psique do original com a psique da sua reconversão moderna. E o resultado é um pouco triste: nos anos 50, o espectador era tratado como um adulto; no nosso tempo, o espectador é tratado como uma criança ou mesmo como um imbecil. Hoje em dia, parte-se do pressuposto de que o espectador é burro. O argumentista e realizador metem tudo na misturadora e servem uma papa já mastigada ao espectador. Como é óbvio, este modus operandi destrói os silêncios, os subentendidos, o mistério de um frame não explicado, enfim, destrói a imaginação do espectador.
O objecto desta fabulosa experiência científica é o ?3:10 to Yuma? (o original é de 1957, e foi realizado por Delmer Daves ? um tarefeiro muito competente; fez um dos melhores filmes da dupla Bogart/Bacall, ?Dark Passage?; o remake é de 2007, e foi realizado por James Mangold). A história gira em torno de dois homens, o bandido (Ben Wade ? Glenn Ford/Russell Crowe) e o pai de família (Dan Evans ? Van Heflin/Christian Bale). Como já perceberam, o encanto da história deriva da colocação de um homem normal (Evans) numa situação extraordinária. Reza a lenda que é aqui que nascem os heróis. Bom, não vou contar mais nada, para não ser desmancha prazeres. Vou apenas, como dizia há pouco, comparar a atmosfera de cada filme. E a diferença principal está na forma como se aborda o bandido, Ben Wade. O filme original não tenta explicar o comportamento do bandido, ou seja, não tenta explicar a origem do mal. O mesmo já não sucede no filme de 2007. Mangold tenta explicar o mal através dos traumas psicológicos: o pai era um pulha, e a mãe uma faraónica meretriz, logo, Wade só podia ser bandido. Esta justificação revela bem o ar do tempo das nossas sociedades, que vivem subjugadas por esta espécie de vulgata psicológica.
Não sei se Carlos Cruz é culpado ou inocente dos crimes pelos quais foi condenado. Assim como não sei exactamente o mesmo em relação a todos os outros nomes envolvidos num processo penosamente interminável que me enoja e angustia até ao limite, tal como, suponho, a qualquer pessoa de mente e estômago minimamente saudáveis. Anos e anos de uma insuportável pirotecnia em volta deste caso contribuiram muito para lançar sobre todos nós graves dúvidas, desconfianças e descrenças na mais sagrada das nossas instituições. Talvez a mais perversa das marcas profundas que estes anos nos deixaram - e que perdurarão muito para além desta saga, cujo fim nem sequer se avizinha ainda - seja a de terem-nos transformado a todos na pior espécie de justiceiros: os que julgam, condenam ou absolvem com base no palpite, no feeling, nas simpatias e antipatias pessoais, no bom ou mau "ar" dos arguidos. Com base em tudo menos em fundamentos, que desconhecemos em absoluto e parecemos dispensar alegremente.
Tivemos finalmente uma sentença taxativa e clara, proferida por quem conhece o processo à exaustão, e recuso acreditar que crimes desta natureza e gravidade sejam julgados levianamente. Quero firmemente acreditar que a sentença é justa e que estas seis pessoas são, de facto, culpadas dos crimes de que eram acusadas. Não por uma mórbida sede de vingança ou outra razão qualquer, mas porque quero acreditar na seriedade da justiça portuguesa.
Voltando a Carlos Cruz, o nome mais insistentemente repetido por todos, digo de novo: não sei se é culpado ou inocente. Mesmo que lesse atentamente as duas mil páginas do processo - entretém que nem para uma reforma numa ilha deserta reservaria - eu não teria os meios nem a formação técnica para fazer uma avaliação isenta e válida. Mas há duas coisas que sei. A primeira é que Carlos Cruz tem a defendê-lo há oito anos - e a custo zero! - dois advogados de renome da nossa praça (e mais uma legião de pesquisadores e estagiários, com certeza), que já prometeram publicamente levá-lo em ombros até ao cadafalso, se preciso for. A segunda é que tem igualmente ao seu dispor uma arma poderosíssima, que domina como poucas pessoas neste país: a comunicação social. Se é verdade que os media o massacraram mais do que a qualquer outro arguido - e ele nunca perde uma oportunidade de se vitimizar por causa disso - não é menos verdade que os mesmos "carrascos" agora lhe dão igualmente visibilidade total para se defender e dizer de sua justiça. É quase um caso de omnipresença: está na abertura de todos os telejornais, está em conferências de imprensa, está em todos os debates sobre o assunto, está na net (com um site em que promete escândalos e revelações inauditas, e por isso regista diariamente um número de visitas astronómico), enfim, tem todo o tempo de antena que quiser. E, naturalmente, gere tudo isto com a mestria de quem trata as técnicas de comunicação por tu: o tom de voz, o jogo fisionómico, as palavras escolhidas a dedo e doseadas em teasers a preceito, etc., etc., etc. Pergunto: qual dos outros condenados do processo Casa Pia tem acesso a tantos privilégios? O mediatismo tem vantagens e desvantagens, porque os paus têm quase sempre dois bicos.