Atenção: Directório
|
Directório RSS: |
|
Controversa Maresia
|
Controversa Maresia - SAPO Blogs
|
-
projecto bichice tóxica
Reduzida à RTP 1 enquanto boicoto a PT em todas as suas formas até ao limite das minhas forças - uma autêntica tevê-exluída, portanto -, deparo-me com o émulo do project runway, em português projecto moda (que original). O que me salta assim logo à vista e aos ouvidos (e me dá vontade de os tapar) são os níveis tóxicos de bichice, muito além do que devia ser publicamente permitido. A parte não-bicha, residual, é composta por umas raparigas desenxabidas que me parecem do norte e que fazem uns fatos horríveis (só a gente do norte faz roupa assim, de reposteiro, pesadona e antiga, mas a achar sempre que é apenas retro). O ambiente que se respira é de estupidez em geral. Os jurados são compostos por uma betas que parecem ter problemas de dicção e safa-se apenas um dos Manéis. A roupa é pobre, pobre, pobre, a anos-luz do projecto original e quanto à Nayma, por contraponto à Heidi Klum... enfim, sem comentários. Com graça, apenas, a frase final pontapé-no-cu: não sei quantos, estás fora... de moda. Isso teve piada. Entretanto, o bicha eliminado chora e os níveis tóxicos baixam drasticamente enquanto sai; mais um bocadinho e já se pode respirar. Afinal parece que não, a seguir vem a Catarina Furtado (estou quase, quase, a ceder ao monopólio PT).
-
célia, a drama queen
A Célia tinha uma particularidade: era-lhe difícil acabar com as relações mesmo depois de acabadas, de kaput, de over and out, de ponto final, parágrafo. Guardava-lhes sempre, no mínimo, o número de telefone e traços de memorabilia: uma florzinha no meio de um livro, um cartão, uma peça de roupa deles esquecida numa gaveta, e nunca estava mais de dois, três meses, sem lhes dar sinal de vida. Jogava em várias frentes, a Célia, não como forma de acautelar uma qualquer solidão desprevenida mas porque era uma sentimentalona esperta (ou uma espertalhona sentimental, como preferirdes). A dada altura arranjou um advogado separado de facto, desses do crime, que não recebem honorários em dinheiro mas em bens que os clientes têm interesse em fazer desaparecer. O dito usava gel no cabelo e tinha um barco, um iatezito com alguns anos em cima, mais para o lado da traineira do que para o da lancha rápida, apesar dos dois motores honda enganarem bem. Um dia, estavam todos a entrar no barco: ele, ela e os filhos dela do primeiro casamento, quando aparece o ex-marido a passear-se-lhes no cais, sabe-se lá por alma de quem. E era ela a gritar-lhe do passadiço, Oh Alberto, anda connosco dar um passeio, estão aqui os teus filhos!.Perante o entusiasmo dos miúdos e o ensimesmamento do advogado, pessoa discreta fora da barra dos tribunais apesar do gel, o Alberto lá foi, passar o dia em família mais o apêndice endinheirado. Consta que uma semana mais tarde, a Célia e o ex ter-se-ão encontrado outra vez por acaso num café ao lado do emprego dele e que, por entre um folhado de carne e uma chamuça deslavada, acabaram a desmoer os salgados em casa dela, a rever posições e a fumar a xixa que ela havia trazido de uma viagem a Marrocos com o advogado, uns meses antes, mas que este, homem de leis e de cautelas, nunca se atrevera a experimentar. Despediram-se de manhã com promessas de reencontros futuros ao sabor do destino, porque assim era a Célia. Guardava fotografias e bilhetes: de cinema e de concertos pop, e escrevia a lápis num cantinho o nome do namorado (ou ex-namorado) com quem assistira aos mesmos, não fosse a memória atraiçoá-la. Havia dias em que sentia que ainda gostava deste; outros, um bocadinho mais daquele; e às vezes achava que gostava de todos ao mesmo tempo. Então divertia-se a construir mentalmente o Homem Perfeito, retirando bocadinhos simpáticos de cada um deles e colando-os numa só personalidade e num só corpo. Uma vez apaixonou-se por um alegado vegan, uma criatura de tez escura e frases feitas, adaptadas livremente do imaginário budista, que prometiam noites infinitas de sexo tântrico. Envolvida no suposto misticismo oriental da criatura (cujo bronze afinal era da margem sul e tinha silva por apelido) e por um estado zen que lhe fazia bens aos nervos e lhe baixava a tensão (que andava sempre nos picos), comprou panos tingidos com que encheu o tecto do apartamento, forrou a sala de calendários budistas, baixou a iluminação, espalhou incenso pelas divisões e pespegou com shiva e ganesh nas paredes do quarto. Quem lá entrava, descalçava os sapatos. Deixou de comer carne e passou aos verdes. E foi assim que, a dada altura, num restaurante tibetano em Lisboa, onde almoçava com o seu rapaz do meco (a quem invariavelmente pagava as repulsivas necessidades materiais que este, contra sua vontade, sentia), reparou que na mesa em frente se encontrava o advogado com uma miúda de vinte anos que lhe levava o tofu à boca. Aquilo baralhou-lhe os sensores amorosos e Célia sentiu-se dividida entre fingir gostar do seitan que engonhava na boca e do sumo de tubérculo com que o ensopava, ou atentar melhor e ter pena do ar desconsolado do advogado, que ela sabia todo dado aos prazeres animais - e aos da carne em particular. Prazeres, aliás, que ela em tempos bem conhecera, mas que havia muito não provava (o caso da tarde familiar no barco não dera lá muita saúde à relação, em especial quando o ex bebeu as sagres todas com que o advogado enchera o mini freezer, feito surra). Bom, resumindo, Célia logo tratou de fazer olhinhos ao advogado, descaradamente. Duas voltas à casa de banho ao mesmo tempo e nessa noite, horas mais tarde, comiam os dois um belo bife de lombo numa brasserie conhecida de Lisboa, lambuzando-se com proteína animal e fazendo planos para acabarem a noite lambuzando-se como animais. Mas a brasserie tinha um bar e, quando se preparavam para passar aos digestivos e ele lhe ia contar como o barco se havia afundado no próprio cais por modos misteriosos, aparece-lhes à frente um barman que ela havia conhecido numa discoteca manhosa do cais do sodré e que lhe servira tantas caipirinhas que ela acordara toda nua numas águas furtadas lá para os lados da Graça - e onde voltaria a acordar nos dias seguintes, porque a nossa Célia era sensível ao movimento artístico e aos seus derivados, e se havia águas furtadas alguém acabaria a pintar, a esculpir ou a declamar qualquer coisa. A cena durou pouco, não porque ele fosse um cepo no que toca a sensibilidade (que por acaso até era), mas porque a despachou num ápice, uma vez que podia ter pitas novas todas as noites. Célia nao levou a mal: guardou-lhe o número do telemóvel, os pauzinhos com que mexia as caipirinhas e as bases de copos do bar: tudo com o devido carinho mas alguma indiferença, pois tinha discutido à seria com o ex por ele não pagar a pensão aos putos e a briga fora tão feia que acabariam fechados em casa dele por três dias numa de make up sex, embora ela dissesse que se haviam reunido para "negociações". Mas, voltando à noite do advogado, escusado será dizer que este perdeu para as caipirinhas, tendo Célia fugido com o barman pela porta de serviço uma vez terminada a função, embora não sem guardar carinhosamente a factura dos bifes de lombo. Afinal, alguns meses mais tarde e acabaria por se atracar por uns tempos a um gestor de conta. Para já, porque achava que este tinha um porte parecido com o do advogado, pois também usava gel de modo ligeiramente mafioso. Tinha ainda uns olhos parecidos com os do primeiro marido, a estatura do barman e era morenaço como o outro; no fundo, eles eram todos parecidos, como não os amar a todos e a cada um deles? Nunca acabava definitivamente, a Célia. Guardava sempre bocadinhos de amor para uma noite de chuva, prevenia-se de carinhos e de posições favoritas, não fosse o diabo tecê-las que a gente nunca sabe o que nos traz a esquina seguinte. Era a rainha das despedidas ardentes e dos reencontros apaixonados, uma equilibrista emocional que, apesar dos arquivadores de bilhetes e dos índices quase onomásticos com os petit nons que dava às pilas que lhe iam passando pelas mãos, sofria de uma desarrumação mental e de uma superficialidade amorosa que confundiam tudo e todos com todos e tudo. Superficialidade, essa, que compensava com um fidelidade da qual se orgulhava porque a considerava perene, embora alternada no tempo e no espaço, claro. Uma excelente personagem para um livro, a Célia: complexa, interesseira, vivaça, sem escrúpulos, carente, imprevisível e com um manancial tal de homens à sua disposição, que daria para encher vários capítulos de fornicações entrecruzadas, tão de moda nos romances de hoje em dia. Mudava-lhe era o nome.
-
Sou uma mãe divorciada em férias. Com tudo o que de muito mau e de muito bom isso implica. Ambos são óbvios, para quem saiba do que eu estou a falar. Ando divertida, triste, saudosa, cheia de pica, descansada, stressada, cansada, a ler muito, a ver pouca televisão, poucos filmes, algum teatro, pouca praia, muita cidade, compras, piscina, mais livros, nada de escrita, só a dos outros, jantar fora quase todos os dias, amigas antigas, um novo amor bom, resiliente, cantável, de muitas cifras. Muita música entre nós. Concertos, o pó do sudoeste, coisas boas. Mas também saudades rasgadas, perdas enormes, soluços que cortam a noite. Seguro que chegarei ao fim do mês a precisar de férias. Seguro. Entretanto, até já.
-
a felicidade é uma mesa cheia de miúdos com fome
Olho-te as costas enquanto sobes a ladeira à minha frente, a noite quase escura, e sei que não vou esquecer este momento, tal como não esqueci aqueles em que a subi com eles, o mais pequeno, pequenino demais, a pedalar muito depressa, as mãos papudas coladas ao guiador, um anjinho de capela sixtina; ou, recuando ainda um bocadinho mais, na cadeirinha agarrado ao pai, as pernas gordas abandonadas ao vento. Dávamos sempre duas voltas no chão de calçada do lado de lá do posto dois, aquele redondo. Duas voltas, meninos!, vá lá... E eles a curvarem cada vez mais por dentro, e mais e mais, como se assim driblassem a imposta condição. Hoje atravessei-o, ao chão redondo, mas rasguei-o a direito, os olhos cravados nas tuas costas a ver se me fazias chegar a casa e e se eu não ficava ali, caída, entalada na brecha que eu mesma acabara de abrir. Chegamos, por fim. Olho em volta o vazio e sinto que não tenho braços, tenho cotos. Agarro nas coisas com o esforço dos aleijados, viro a cara à passagem pelo quarto deles, mas teimo em tropeçar em gormitis, pokemons e soldadinhos de guerra: tudo serve ao mais pequeno para encenar desembarques na Normandia, batalhas de Dunquerque, que ocorrem corredor fora, à beira da piscina, em cima da mesa. E os aliados que nunca ganham, estão sempre quase quase, que ele gosta pouco de dar aos outros o gosto da vitória. De ti, meu querido, poucos vestígios. Talvez explique alguma coisa, isto, talvez os sinais que não consegui ver. Escrevo no verso de uma conta de supermercado e, no andar de baixo, outro dos meus amores que ainda resta fuma um cigarro e deixa-me em paz enquanto vomito o modo como hoje em dia te trago; abri o peito e, em vez de tirar qualquer coisa (um orgão qualquer, daqueles fundamentais, como fazem nos filmes de terror e a pessoa morre logo), enfiei-te cá dentro para ter a certeza de que nunca mais me foges. Só que, com o espaço que agora ocupas, nem consigo respirar, nem sequer comer; e ainda me faltam os braços, não te esqueças. Habituo-me mal ao mundo dos adultos: as minhas piadas são pueris, o meu linguajar, infantil, gosto dos alimentos molinhos e bem cozidos, penso demasiado em gelados e chocolates, que intercalo com gins tónicos para não me esquecer de que sou crescida. Lá em baixo o meu amor de maço vazio e a paciência consumida, ele que não entende esta minha necessidade de sacar das entranhas para fora e de as mostrar ao mundo, que coisa tão anormal. Mas vocês sabem do que falo. Arranco a última página em branco de um clássico da literatura que veio com a Visão, aquela última página mesmo antes da lombada, para poder continuar a escrever, quando me apercebo de que pouco mais tenho a dizer, a boca tão cheia de saudades, saudades, saudades. Cozinho panelas enormes de comida, bolonhesas e guisados que ninguém come e que impinjo aos amigos da minha filha que vão passando. A felicidade é uma mesa cheia de miúdos com fome.
-
a filosofar sobre as sopeiras ou o ipiranga das patroas
Disclaimer: este é um post fascizóide. Portanto, esquerdalhas defensoras do subsídio social, das férias negociadas, do seguro de saúde e do basicamente "aqui quem manda é a minha empregada", sigam.
Por razões que me ultrapassam, juro (tipo mortes e doenças improváveis), tenho tido várias empregadas domésticas nos últimos tempos. E, como mais do que duas já me chegam para teorizar, tenho chegado a várias conclusões, sendo a principal a seguinte: mesmo a mais angelical das moldavas, a mais fofinha das amas-de-leite angolana ou a mais honesta das mães de família portuguesa, é na verdade um demónio, todas uns penates invertidos que vieram ao mundo para foder o nosso caos natural de patroas, desajudando enquanto, alegadamente, "arrumam".
E quem esteve algum tempo sem as ter, percebe ainda melhor o que quero dizer: ao princípio é o pânico: ai!, ai!, ai!, e agora o que é que eu vou fazer?. Ele são as pilhas de roupa que se acumulam pelos cestos, os pêlos de gato em tufos pela casa, as camas por fazer quando chega a noite, a loiça que se acumula porque nem há tempo de a enfiar na máquina e de repente já é o dia seguinte. São as teias de aranha, o pó e as casquinhas que oxidam. Mas, aos poucos, lá nos vamos organizando, distribuindo algumas tarefas por terceiros (poucas, que as crianças continuam a achar que um grupo de duendes lhes arruma os quartos durante a noitem enquanto dormem). Aprendemos expressões populares e giras como "fazer máquinas de roupa", que partilhamos triunfantes com os que nos são próximos, que nos ouvem, horrorizados: "Olha, ontem fiz quatro, QUATRO!, máquinas de roupa!". Também é natural que, por alguns tempos, toda a roupa ganhe o mesmo tom acinzentado, dito de burro quando foge, porque nos é desconhecido aquela coisa básica de "não misturar cores diferentes": a bem dizer uma patroa não nasce ensinada. Entretanto, lá aparece uma empresa que nos carrega a dita roupa depois de lavada dali para fora e no-la entrega já passada; as camas vão sendo feitas à má-fila, o pó é esquecido e as pratas também e, desde que apareça comida na mesa, está tudo bem e a vida segue. Até que um dia concluímos que, por mais que nos esforcemos, a casa não tem maneira de se compôr, de brilhar, de ficar bonitinha como dantes. Apercebemo-nos disso quando damos por nós a desculparmo-nos perante as visitas e a enfiar boxers sujos para debaixo do armário com o pé. Enquanto isso, as plantas morrem de sede, não há quem dobre a roupa interior, a aranha no canto já gerou descendência e às tantas não sabemos se a casa é nossa, se dela e das filhinhas dela. Os recantos mais obscuros da cozinha acumulam porcaria - como os fundos da dispensa e das gavetas, onde nunca chegamos. Instala-se o pânico das baratas e de outros rastejantes, daqueles que sobem pelos canos. E começa mais uma vez o calvário das entrevistas ao sopeiral.
São sempre todas recomendadas por amigas e tias, do melhor não há, conhecidas da Svedlana, "que está há dez anos em nossa casa". Estranhamente, as entrevistadas querem logo saber das férias, dos subsídios, dos descontos para a segurança social e do horário de trabalho, e todas elas são limitações, embora nos exijam este mundo e o outro. Oito euros por hora ou setecentos euros de ordenado fixo, logo à cabeça. Nunca perguntam se há crianças em casa, que idades têm, como se chamam cagando e andando. Uma ficou logo ali quando lhe disse que, periodicamente, tinhamos um cão. Grande. E ela: "é que se ainda fosse pequeno... tenho horror a cães!". Portanto, a estatura do cão (dócil, estamos a falar de um labrador), impediu-a de aceitar o emprego. Talvez tivesse preferido um pincher daqueles que vão logo às canelas. Ou apenas não queria trabalhar (o mais provável). O que nos leva directamente para a próxima questão (e aqui entramos na tese propriamente dita):
a) as sopeiras são todas umas esquisitas. O que é bom para nós nunca é suficientemente bom para elas. Só comem pão assim e assado, ou integral, ou saloio, ou de sementes, ou alentejano ou o caralhinho, e nós de carcacinha com manteiga, todas contentes. A carne, só do lombo porque os dentes, ai os meus dentes são muito sensíveis e o senhor doutor disse-lhes que só podiam comer da tenrinha. Então mandamo-las ao talho comprar frango para fazer com esparguete, e elas vêm com o saquinho de bifinhos do lombo para jantarem em casa. E a fruta, só da melhor: mangazinha e papaia, das madurinhas, porque a minha Rute só gosta de fruta muito doce, e o ananáz tem de ser abacaxi que ela tem tendência a fazer aftas, diz-me uma enquanto eu rôo uma maçãzita (pronto, é bravo-esmolfe, é verdade, mas não chega aos pés de uma manga madurinha). E os restos? Não conheço sopeira que coma restos de refeições anteriores. Já tive várias a quem dizia, expressamente: "oh dona xis, para o almoço tem aí o resto do empadão que fiz para o jantar, está guardado no frigorífico; também sobrou salada". Qual quê. Caso calhasse vir a casa à hora de almoço, lá estavam elas a alambazar-se com queijinhos frescos e tostinhas e ovinhos mexidos e manguinhas e o empadão à espera, para o comermos nós ao jantar. Também não bebem qualquer coisinha: água, só mineral ou purificada, que a da torneira pesa no estômago e sumos, só de laranja e naturais, porque os outros é só corantes e açucar. E isto porque:
b) todas as sopeiras estão sempre doentes. Não sei se já repararam, mas não existe uma empregada doméstica que venda saúde e que chegue energética e a fazer jogging para o trabalho. Têm sempre milhões de achaques: ou de coração, ou pernas inchadas, ou tendinites, ou são fracas de estomago (daí só poderem comer iguarias, e não empadões requentados), ou são as cruzes e não podem estar muito tempo em pé, ou têm tensão baixa ou tensão alta. Isto não seria dramático se as casas não tivessem esquinas e se a gente, patroas, não tívessemos de nos cruzar com elas de quando em vez. Porque quando somos apanhadas elas já não nos largam e estamos feitas. Normalmente, têm ou já tiveram todas as doenças catalogadas pela OMS - elas e as respectivas ninhadas; e, enquanto vão contando os meses que estiveram internadas e os procedimentos previsivelmente carérrimos a que estiveram sujeitas para ficarem boas, depois de cem tacs e duzentos exames acabados em ias, daqueles que a gente só ouve falar no house, cospem sem dó nem piedade no sistema nacional de saúde. Que um dia uma enfermeira passou por elas e nem lhes disse bom dia, que outro dia o médico nem olhou para elas no corredor, o ordinário. E depois vão sempre a muitas juntas médicas e estão sempre muito de baixa. Mas, para elas, é sempre "uma vergonha, senhora doutora! uma vergonha! ai o que eu sofri, que estava a ver que me ficava ali naquela cama de hospital!". E não são só as doenças, ná. Quando coincidimos com elas numa qualquer divisão da casa (valha-nos deus!), temos de correr, correr muito!, senão somos fulminadas com a conversa sobre "qual o melhor detergente para mosaicos" ou "a minha filha teve notas muito boas na escola e ganhou uma bolsa de estudo" (e nós lixadas porque os nossos tiveram suficiente, as putas), ou ainda o clássico: "o meu irmão que está emigrado vive numa cidade alemã muito linda e lá têm regalias de saúde a sério, não é como cá" (esta versão é em especial para as sopeiras tugas da bata, de preferência as que já foram operadas três vezes ao coração sem pagarem um tusto e que ganham de vários lados sem nunca terem feito um único desconto). Quando finalmente nos libertamos das suas garras queixosas, e elas vão trabalhar qualquer coisa, e aí é pior a emenda do que o soneto. porque:
c) as sopeiras querem sempre transformar os nossos apartamentos à imagem e semelhança das suas casinhas na pontinha ou em rio de mouro - e fazem-no quando nós não estamos a olhar. Por exemplo, a obsessão pelas molas de roupa: elas usam molas de roupa para tudo, não apenas para pendurar a roupa propriamente dita. Gostam do objecto, pronto. Fecham os saquinhos todos com aquilo "pra não entrar ar" e deixam-nas espalhadas pela cozinha, não vão ser precisas a qualquer momento. Depois lavam e guardam os boiões dos iogurtes, onde metem terra e algodão para nascerem sementinhas não sei de quê, porque têm a mania que são jardineiras. E de seguida vão-me para o terraço escavar ceninhas e trocar as plantas de vasos, e transplantar as ervinhas dos boiões para os vasos maiores, e cortam-me rosas para fazerm arranjos que metem em jarras no meio da sala. Além de prenderem cordas de roupa com nós impossíveis, com que me atravessam o terraço de lado a lado, e onde balançam meias e cuecas - que o estendal que lá pus, escondidinho atrás de umas treliças, nunca lhes chega. A minha presente empregada, por exemplo, fodeu-me o ambiente lounge: neste momento, tenho aquilo transformado numa mini-marquise da rinchoa, que até cactos tem (cactos!), o que só ontem descobri. Estou com uma fúria destrutiva digna de um transformer, um dos maus.
Mas elas ganham sempre: agora, por exemplo, vou comer o resto das almôndegas de ontem e fazer as camas de lavado, que a gaja não vem há dois dias, parece que está com uma merda de varizes, e já me telefonou a contar que o doutor lá do centro de saúde não sei quê, agora só para a semana, senhora dout..., mas entretanto fiquei sem bateria e parti-lhe a merda dos boiõezinhos todos.
-
mimos
© sofia vieira
Mas eis que chega o mimo. Ah... o mimo. Os diminutivos sussurrados, as blandícias, os gestos escondidos, as palavras inventadas porque nenhuma chega para definir na perfeição os trilhos que a alma segue e as encruzilhadas onde se esgota. Os afagos pelos cotovelos, o amor que respinga e que ambos apanham em concha com as mãos, os dedos dos pés em flor. Ela, que o agarra por trás tentando abarcar-lhe a cintura quando se deitam e moendo-lhe as costas de beijos, traçando-lhe mapas húmidos na pele e às cegas, enquanto o sono hesita. O ambos se permitirem o ressono do outro, ele que não a manda calar quando a sinusite dela assobia na noite, e ela, que ligeiramente o abana no contratempo de um rouco profundo, apneico e aflitivo. Trocam-se juras enquanto se dorme, promessas esquecidas no dia seguinte, mas que nem por isso perdem a validade do primeiro dia, do primeiro olhar, das primeiras mãos: suadas e nervosas a desbravarem caminho no corredor de um quarto de hotel, numa cidade estranha. Ele, que às tantas ataca o frigorífico e que a ataca na cozinha, e que não sabe o que comer primeiro, e ela, que o arrasta quando as luzes cuscas da rua se acendem, a maionese aberta na bancada, a coca-cola a perder o gás, e pelo caminho até ao quarto um trilho de roupa interior onde a gata se enrosca e adormece, indiferente ao bulício carnal e ao perigo iminente do desmembramento do estrado esquerdo da cama king size, comprovando-se assim que o material sueco nem sempre é de primeira qualidade.
-
cacos
© sofia vieira
E de vez em quando o reverso, o drama, a destruição, a ventania. Os braços abertos que a deixam fugir, que a empurram para os confins da estrada, e ela a esparramar-se no asfalto, à mercê de qualquer coisa, de quem quer que seja, azaramboada, morta se o arrependimento matasse. Ele a rainha do drama, a fúria do gigante, a insensatez, o desvario, o fim tantas vezes anunciado, o abrigo precário, o sopro do coração. Ele, os cacos que ela apanha do chão e que varre com parcimónia doméstica, o chão que desinfecta com lexívia; os sacos de plástico com os despojos de guerra dos quais ele se desfaz a horas mortas, para que os vizinhos não saibam que o mundo acabou, ponto final, parágrafo. Entre ambos, um silêncio que mortifica, deambulante, uma desconfiança hostil e a certeza de que tudo é nunca, que o que foi já não volta, maldito o dia em que te conheci, esquece-me, odeio-te, morre. A posição fetal e quieta na cama que não mais se desengonça nem descabela, a escuridão onde o mar não entra, o queixume silencioso, a dor rouca, o fado vadio, as malas aviadas à porta, a saída intempestiva que ela ensaia e ameaça, que coreografa vezes sem conta, só para ver se ele a impede. E ele, que umas vezes lhe barra o caminho e que outras, nem por isso.
-
cordas

© sofia vieira
E depois tem a maneira como ele a abraça, nunca vira nada assim. Vira de ver, mesmo. De como os ombros dele se encurvam, contemplando-a toda, primeiro com uma aparência devoradora, como uma piton escancarando as mandíbulas e preparando-se para a deglutir inteira, anestesiando-a primeiro, hipnotizando-a, açambarcando-lhe a pele, crescendo perante ela, tapando-lhe o sol. Há uma falta de ar que se insinua nela, como se pressentisse o fim e nada mais valesse a pena, respirar para quê?, mas depressa cede ao calor daqueles braços que crescem e descem sobre ela, redondos, um cordame que se enrola e aperta, o tronco dele a acompanhar o movimento, a ajeitar-se de lado, descaindo um pouco por forma a fechar sobre ela o círculo, comprimindo-a com uma suavidade determinada de ressuscitar corações. Ele é alto, e por mais que se ajeite e se entorte e a circunde, ela esparrama-lhe sempre a cara no peito, expirando tanto receio como alívio, escondendo o nariz entupido de emoção naquele torso largo, que carrega lá dentro um compasso cardíaco acelerado, o compasso de quem quer guardar o outro para sempre dentro de si, carregá-lo em modo marsupial, levá-lo ao médico, às compras e para a cama, porque senão morre. Depois ele embala-a, como se faz a um bebé, numa cadência fina que transmite a certeza de ainda ali estar no dia seguinte, de pé embrulhado nela, porque não, os cavalos nem sempre se abatem, e ela não sabe se aquilo é amor ou se ele um corta-vento, só sabe que adormece e tudo o que ele podia fazer dela, se quisesse.
-
nada fracturante, mesmo
Francisco, em primeiro lugar, desculpa a resposta tardia, mas passei o fim-de-semana a cozinhar e, por entre caldeiradas e lagostas suadas, a alma a carpir de as mergulhar vivas na panela, o melhor bolo de chocolate do mundo (sim, o meu), e a nossa selecção pila-frouxa, o assunto passou-me. Enfim.
Bom, em primeiro lugar, e apesar do tom irónico do teu segundo parágrafo, consideraria que estás a extrapolar, ponto. Eu nunca disse que "(...) aquelas meias-horas de cozinha são engodo para atrair homens carentes e rapazes com saudades do tempo em que as mulheres exibiam «a opulência de uma madonna de Rafael» (...)". Não percebo porque é que um homem qualquer, vidrado numa Nigella gira, sexy, opolenta e badalhoca, tem de ser "carente". Parece-me apenas que é saudável e que gosta do que é naturalmente bonito, cedendo leve levemente ao magnetismo sexual da criatura. Tudo dentro dos conformes para qualquer macho (ou até para qualquer fêmea!) , portanto, Francisco, que não te sintas atingido na tua masculinidade, por favor!, tu vê-me a Nigella à vontade.
Quanto à cozinha dos chefs actuais, concordo contigo em praticamente tudo; e quanto à cozinha das mães e das avós, também. Infelizmente, se eu descobri a Nigella com um delay de alguns séculos, a tua tese sobre o complicómetro dos grandes chefs e a comida das nossas escravizadas mães e avós também não é propriamente uma novidade. Já o MEC dizia, no seu "Em Portugal não se Come Mal" (1ª ed. , Assírio e Alvim) , no magnífico texto "O sexo dos marmanjos", que "A boa cozinha é feita de trombas, resignadamente, porque, senão, não há nada de jeito para comer" (pág. 143). E ainda: " Enquanto os homens (...) insistem em dar uma mijinha pessoal no que cozinham, para marcar o território e proclamar com fedor " este magnífico lobo esteve aqui", as mulheres querem é reproduzir a comidinha de que tanto gostaram" (págs. 144/145). E por aí fora, sendo essa a ideia, aliás desenvolvida com génio em várias páginas. Recomendo a leitura.
Por outro lado (e já agora), não percebi muito bem onde e porquê intersectas a Nigella com as mães e as avós; só se tiveste mãe/avós lindas, desastradas e opulentas. Porque, no que concerne à comida propriamente dita e no caso da minha ascendência, nenhuma receita da Nigella bate o sável com açorda ou o bolo de vinagre da minha avó ribatejana, nem as arepas com manteiga enroladas em folha de plátano da minha outra avó, de costela venezuela. Só para dar dois exemplos, senão nunca mais daqui saíamos.
Quanto ao restaurante inglês que me sugeres, eu, que ao invés de ti sou pouco viajada e como mais por casa do que por fora, não duvido de que deve ser excelente. Mas parece-me que estás a confundir os planos: o facto de haver num dado país muitos bons restaurantes não torna a sua "cozinha" uma boa cozinha. Pelo menos, não no sentido que eu lhe quis dar, de que a "cozinha" tradicional inglesa (com as suas pies e os seus puddings), não é das melhores, e isto para ser simpática. Estamos a falar de coisas diferentes. Por isso, não me custa a acreditar que hoje em Inglaterra se faça uma das "melhores cozinhas do mundo". Seguramente, não à custa da Nigella.
Por fim, só mais uma coisinha. Os homens têm noções básicas acerca das mulheres, que incorporam sempre nos seus raciocínios quando querem atacar alguma em particular. Uma das mais insistentes, é a de que as mulheres são as principais inimigas umas das outras e que, por inveja, necessidade ou espaço vital, são as primeiras a saltar em cima de outras mulheres. Eu não costumo fazê-lo, sou democrática: tanto arraso homens como mulheres, quando é caso disso. Em contrapartida, tendo a favorecer pessoas giras, sexy, agradáveis e simpáticas. Gosto muito de ver homens e mulheres bonitos e de os ter à minha volta, na televisão e na vida real. Comigo, a lei da atracção funciona às mil maravilhas, e se às vezes sou uma cabra, seguramente não é por aí.
Portanto, por favor, não me insultem a inteligência (nem a aparência, porque também tem a ver com ela - ou com a falta dela) dizendo que é porque sou "mulher" e porque a Nigella é gira e boa, que sou a primeira a "atacá-la". Poupem-me. Sou é uma pessoa que gosta de comer, de cozinhar e de improvisar (não tenho bimby por isso mesmo), e de o fazer numa bancada relativamente limpa. A minha crítica, se é que fiz alguma, foi a de que a comida dela não me parecia grande coisa e que, portanto, o seu sucesso teria mais a ver com a pessoa em si e com o seu, digamos, magnetismo sexual, do que com as suas habilidades culinárias.
Por coincidência, estou a vê-la cozinhar um "salmão tostado com gengibre" que deve ser horrível. Os filetes de salmão atirados desastradamente para dentro de uma frigideira anti-aderente sem um pingo de nada, mal passados, depois despejados num prato e cobertos com um molho de soja com pedaços de gengibre de muito mau aspecto. De facto, quanto mais atento na Nigella, menos gosto do que cozinha e da forma como o faz. Mas continuo a achá-la boa, gira e engraçada, e a ter os olhos postos nela até aos créditos finais.
Na verdade, a questão parece-me simples e nada fracturante, mesmo.
-
morte anunciada
Ao almoço, eu em frente a uma posta de bacalhau com grão e a um televisor na sport tv, onde acontecia um jogo do mundial entre dois países de louros, não percebi quais. O som, posto baixinho, dava para apreender um apitadela mais vigorosa do árbitro e era tudo. Nem palmas, nem assobios, nem exclamações colectivas de alegria, de desgosto ou de susto. De fundo, um ruído que primeiro pensei ser do ar condicionado, depois, das arcas refrigeradoras do próprio restaurante (uma espécie de cervejaria de bairro). Por pouco, não pedia ao Sr. Gil que, para além de me trazer outra imperial, me silenciasse o bicho, que aquilo já me estava a ir aos nervos. Era uma moinha constante, um béeeeeeeee ao longe que parecia abafar todos os outros sons. Foi então que me apercebi: o som vinha do jogo e era o coro infernal das vuvuzelas, só podia. E eu, que nunca antes tinha ouvido aquilo, nem uma nem mil, fiquei chocada, sinceramente. Mas como é que os jogadores conseguem fazer alguma coisa com aquela merda a zunir-lhes nos espíritos, incessantemente? Além de que, como espectador, estar sempre a ouvir aquilo é como respirar uma atmosfera estragada: sobrevive-se, mas o ambiente fica fodido. A solução é ver os jogos em silêncio, ou quase, para não enlouquecer - o que é de certa forma um paradoxo. Embora prognósticos só no fim do jogo, quer-me parecer que as putas das vuvuzelas acabaram com o espectáculo e mataram este mundial.
|
|
|
|